auto canibalismo sutil

Auto canibalismo sutil – ficção – por joão ricardo

Foi quando eu percebi o que ele estava tentando me dizer.

Depois de quase trinta minutos de conversa sobre um assunto que eu só percebi do que se tratava quando ele olhou para mim com uma satisfação temporária estampada em seu rosto (deformado pelas queimaduras que sofreu quando criança, quando ele foi fazer seu café da manha mas o gás estava vazando e ele acendeu o fogo e queimou todo seu desproporcional rosto), como se estivesse lembrando uma canção antiga que o fez sorrir um sorriso doce e verdadeiro. O difícil foi tentar decifrar se o que ele estava tentando expressar através de sua expressão facial era um sorriso ou um choro.

A noite estava parcialmente brilhante naquele dia de sol. O calor estava insuportável, o que fez com que congelasse meus sentimentos de raiva pelo fato de eu não ter pego o papel de bala que vi no chão do banco a tarde. A situação que se seguiu foi no mínimo surreal. O funcionário do banco, depois de alguns minutos e muitos papeis jogados no chão praticamente cobrindo todo espaço, começou a varrer o lugar, devidamente vestido com gravata e roupas que me pareciam caras e de grife. Eu até duvidei da minha percepção visual quando me deparei com este fato pois uma pessoa de gravata e muito bem vestida varrendo o chão do banco como se fosse uma empregada doméstica foi muito gratificante pois, mesmo ele sendo funcionário e tendo que se responsabilizar por certas funções que não incluem esta, ele se prontificou e teve a boa vontade de pegar a vassoura e limpar o lugar. Então ao mesmo tempo que eu duvidava da realidade, eu me sentia grato por estar presenciando o fato.

Várias vezes já tive a impressão de estar sonhando pelo fato de presenciar certos fatos surreais ou escutar certos comentários que só poderiam vir de minha mente. Mas muitas coisas realmente acontecem mas eu demoro a acreditar que seja real, pois na verdade, a realidade só existe dentro de minha mente e realidade são sinais elétricos emitidos pelo meu cérebro, dizendo para meu corpo que tem algo acontecendo. Algumas pessoas personificam ilusões que somente acontecem no inconsciente, outras acreditam em coisas que não acontecem e outras não acreditam na realidade que está a sua frente. No fundo todos tem uma loucura enraizada nas profundezas da mente.

A atitude das pessoas no caixa eletrônico é quase sempre a mesma. Elas já se estressam antes de chegarem na máquina, quando estão em frente não tem paciência e começam a reclamar, depois tiram o extrato, resmungam outra vez e arremessam o pedaço de papel na direção do lixo e na grande maioria das vezes erram o alvo. Alguns nem mesmo tentam arremessar na direção do lixo e simplesmente deixam cair o papel, com o lixo do lado. Depois saem na rua e pisam no chiclete gosmento deixado por uma pessoa com alguma doença bucal. O chiclete então gruda na sola do sapato desta pessoa, junto com as bactérias provenientes da boca fétida de um ser podre que não escova os dentes e vive comendo balas e chiclete e espalhando seus germes pela cidade toda, esperando que alguém pise neles com os pés descalços.

A aura da lua, misturada com a quantidade de luz emitida pela estrelas mortas de um universo distante fez com que eu me concentrasse menos nas suas palavras, as quais eram cuspidas cada vez mais distorcidas e fedidas devido as bactérias de sua língua roxa, dançando pendurada entre os poucos dentes marrons que sobraram de sua arcada dentária mal tratada por um dentista vesgo. A podridão de seu sorriso (doce mas podre), foi adquirida através de anos de mastigação de fumo do Paraguai, comprado na tabacaria da esquina onde as putas ficavam esperando seus clientes onde as pessoas entravam para jogarem no bicho. Elas tem o mesmo discurso e sempre que sonham com algo, relacionam suas experiências inconscientes ocorridas durante o sonho com os bichos que poderiam ser sortiados no jogo da semana.

Poucos deles tem a capacidade de perceber que os sonhos são uma forma de conversa com o subconsciente da mente, onde está gera imagens e situações e as compartilha com a percepção humana para iluminar alguma coisa e fazer com que o sonhador se perceba. A grande maioria de meus sonhos eu os relacionei a situações e fatos da minha vida e obtive respostas para alguns problemas que vinha tendo e não via solução. Outros sonhos são como uma mensagem poderosa que me alerta sobre algum assunto e me faz refletir sobre algo que eu presenciei. Tudo isto ocorre através de metáforas e estas são difíceis de se perceber, mas de extrema importância para meu desenvolvimento individual. A realidade só pode ser compreendida através da imaginação que decorre muitas vezes do sonhar acordado. Ciência não evoluiria sem o poder da dedução e da criação de possibilidades, da imaginação humana nasce o futuro, agora.

Suas orelhas pareciam duas metades de batatas com um complexo sistema de linhas e traços tortos e sombras mal formadas, as quais serviam de coadjuvantes para os atores principais desta peça que se resume em um diálogo sem contexto. Neste momento, gafanhotos postados em suas orelhas bizarras, como se fossem pássaros cantando uma melodia atmosférica começam a se agitar. O interessante não eram suas orelhas abstratas, nem a sugeira que dali escorria por entre seus braços, caindo em seus pés descalços cheios de verrugas verdes espirrando pus para todos os cantos de seus dedos grossos e ramelentos, as vezes ele se agaixava para coçá-los violentamente como se estivesse com alguma doença irremediável; mas o som dos gafanhotos que cantavam em um dueto de 3ª menor, o que dava uma atmosfera melancólica para a melodia que emanava da fricção de suas pernas longas e finas.

O canto, pode ser que sim ou que não, rapidamente atraiu uma legião fiel de formigas que formaram uma fila enorme, a qual começava na cerca de bambu podre onde havia uma coruja pendurada nos observando atentamente com sua antena parabólica voltada para nossas almas enfurecidas, e passava entre seus dedos fétidos do pé, a esta altura cobertos de uma pasta viscosa marrom escura que pingava de suas orelhas gosmentas e distorcidas e continuavam até o infinito de meu olhar, culminando no horizonte. Algumas formigas simplesmente seguiam as outras, sem carregar nada, mas algumas carregavam folhas enormes e pedaços de alhos deixado para trás. Mas todas caminhavam em direção consciente, com um objetivo em mente, uma meta. Na verdade, eu gostaria muito de saber o que as formigas fazem dentro do formigueiro pois uma coisa é certa, elas raramente dormem ou descansam. ´Vai ter com a formiga ó preguiçoso, se sábio e segue teus caminhos´. Foi uma das únicas coisas que consegui entender vindo de sua direção e as vezes me pergunto se o que estou presenciando está realmente acontecendo. Foi quando eu percebi seu hálito mentolado o que dava ainda mais uma condição de surreal aquela experiência abstrata, que emanava de dentro de seus lábios tortos e mal formados que me pareciam ser desenhados por um pintor abstrato, buscando novas formas de representar o feio (tornar o feio, bonito).

No começo achei estranho eu estar me concentrando nas formigas e ele me dizer isto quando eu não estava entendendo nada do que ele estava tentando me dizer. Acredito que nem mesmo ele estava conseguindo entender suas próprias idéias, ou não estava conseguindo se expressar coerentemente por alguma razão. Pensei em chutar aquela sua boca cheia de feridas podres até que seus lábios se endireitassem mas violência fica para os animais irracionais que não conseguem racionalizar verdadeiros absurdos, fica também para os psicóticos disfuncionais que pensam e agem sem racionalizar suas atitudes. A diferença entre estes e os psicóticos funcionais é que os funcionais pensam e não agem, ou seja, vêem uma pessoa falando no telefone celular de dentro de um ônibus lotado e tem vontade de passar e dar um tapa no celular e enfiá-lo orelha dentro e depois socá-lo até a morte. Mas não tem coragem de fazer o que pensam. Já os disfuncionais saem dando tapa em todos que vêem se tiverem vontade. Quais são os loucos realmente? Aqueles que remoem suas angustias e não tem coragem de tomar certas atitudes e vivem com muita raiva e ressentimento ou loucos são aqueles que vivem de acordo com suas reais vontades?! Loucos são aqueles que estão no sanatório por correrem pelados na rua quando tem vontade ou são aqueles trabalhando o dia todo em algo que odeiam fazer?!

Lembrar-me de lembrar a mim mesmo de lembrar. Foi esta a última coisa que passou pela minha cabeça antes de eu começar dilacerar os cantos de meus dedos, mais uma vez, com meus próprios dentes. Atitude que associei com a de onças famintas abrindo a barriga de suas caças para devorarem seus interiores. Auto canibalismo sutil que passa quase desapercebido. Auto destruição a pequenas mordidas suaves nos cantos dos dedos. Ato totalmente incosciente, relacionado com vício que me leva a morder meus próprios dedos e tirar parte da pele sem ter a necessidade de fazê-lo.

Aquele cara vai voltar.

Fiquei parado por alguns instantes observando o sangue saindo debaixo de minha unha destruída por uma mordida mais voraz e percebi o homem indo em direção do nada pisando em todas as formigas enfileiradas, uma por uma.

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