tudo está por reinventar

Por: Fábio Fernandes em

Imagem do texto Um dos artífices da “interatividade de segunda ordem” (idéia derivada da cibernética de segunda ordem), Edmond Couchot, lançou recentemente uma obra na qual analisa os processos e métodos da chamada arte tecnológica. Certamente, o meio digital impera em suas considerações; o que é benéfico: imprime qualidades à interatividade. Os meios analógicos funcionam mais como “atravessadores”; já os digitais, assemelham-se mais a “mediadores”. Mas isso não é tudo, como mostra a resenha a seguir.

Em “Des images, du temps et des machines – dans les arts et la communication”, Edmond Couchot pega de onde Lev Manovich parou em “The Language of New Media”, com um olhar voltado para os clássicos “A Imagem-Tempo” e “A Imagem-Movimento”, de Gilles Deleuze.

Couchot analisa a crescente automatização das técnicas figurativas e sua influência no olhar humano. Num primeiro momento, sua preocupação com o poder da máquina (como ele deixa claro logo de saída, “a fotografia automatizou a captura da imagem e sua reprodução, o cinema automatizou o registro do movimento, a televisão automatizou sua difusão e a tornou instantânea”) parece algo saído dos textos de Baudrillard ou de Virilio.

Mas Couchot não é anti-máquina: seu objetivo é analisar não somente o impacto da tecnologia (muitos já o fizeram), mas entender sob que condições a imagem é inteligível. A máquina, ainda que deixada sozinha, é capaz de criar imagens ininteligíveis ou de uma inteligibilidade que peça a reflexão que só um humano pode fazer?

Para ele, seguindo mais ou menos o ideário Dada, “a arte não é mais a arte”. Com as novas mídias, a arte teria se derramado para além de suas fronteiras. Hoje não se precisa mais, por exemplo, fazer uma colagem com papel ou material físico: uma colagem digital, feita de pixels e de imagens desencorporadas, pode perfeitamente substituir a antiga técnica dadaísta-surrealista, e dando um passo além: assim como Tristan Tzara e Kurt Schwitters (e depois Picasso e Braque), que deram a materiais antigos (papel e madeira, basicamente) novas funções, os bricoleurs contemporâneos usam as técnicas digitais reinventando-as, gerando obras que a indústria do software jamais imaginou.

Dividido em quatro partes, “Des images, du temps et des machines” analisa os modos de ver desde a Idade Média e seu recurso ao ícone como linguagem fundamental em um mundo “assombrado por demônios”, para usarmos a expressão de Carl Sagan, e regido pela fé e pelo culto à imagem para edificação e também para aprendizado, num mundo predominantemente analfabeto em termos de linguagem escrita, até o que Couchot chama de “tempo ucrônico”, ou seja, o tempo não-linear, o tempo fora do tempo, onde ocorrem os processos de simulação, e novos dispositivos e signos são criados para dar conta dessa nova realidade, virtual ou a real ressignificada.

Couchot fecha o livro fazendo uma contraposição entre o tempo ucrônico e o chamado “tempo da história” dos historiadores, apontando para uma “desarticulação” não só entre esses tempos como também entre dispositivos antigos e novos, e defendendo a frase emblemática de Stelarc, que já disse “as tecnologias numéricas tornarão o corpo obsoleto”. Na esteira de pensadores considerados loucos, como Hans Moravec e Ray Kurzweil, que defendem a transferência da mente para fora do corpo e para dentro de computadores e dispositivos digitais, Couchot não é necessariamente partidário dessa experiência radical, ao menos não literalmente – mas coloca a visão que ainda temos do tempo, essa visão arbitrária e assombrada por relógios, em xeque, quase xeque-mate.

A oscilação entre duas temporalidades antagônicas e irreconciliáveis, para ele, precisa ser encarada como algo que está no mundo e não desaparecerá. O homem deve, portanto, entender a conviver com essa nova realidade, criar uma nova Weltanschaaung que lhe permita viver nesse mundo novo, admirável ou não. Para Couchot, uma vez reinventado o tempo, tudo está por reinventar.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s