Distorção Ocular

Seus dedos, completamente calejados pela exorbitante quantidade de objetos tateados, estavam adormecidos pela chuva que (não) caía, formigando num ritmo frenético e, aparentemente sem fim. Os cabelos que mais pareciam pelos de um vira-lata, estavam em pé, como se ele tivesse os penteados daquele jeito, negros, verdes amarelados pelo sol que (não) cessava. A cada instante que se desfragmentava, fritava mais e mais seus miolos, agora a mercê da deterioração imposta pela quantidade de alcool e tantas outras substancias ingeridas em excesso por ele ao longo do tempo. Nem ele mesmo tem noção de quanto tempo já se passou ou se tudo isso seria uma simples ilusão derivada do uso do alcool, contínuo e diário.

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Os panos que cobriam seu corpo franzino e torto, não conseguiam conter o odor que exalavam os poros de sua pele seca e suja, que a dias, semanas ou meses, não era higienizada. O tempo agora é irrelevante. A missão é sobreviver aquele momento de pura alucinação real e verdadeira. A comida já não parava no seu estômago, se é que ele ainda o tem.

As suas extremidades não obedeciam mais os comandos de seu cérebro, agora enxarcado de alcool. Seus movimentos passarão a ser discordenados, a esmo, andando ao léo, a favor do vento. A relação entre o cérebro e seus movimentos motores, suas extremidades já está desconexa a tempos. Se movia sem perceber o que estava fazendo. Essa era sua condição naquele momento de sua existência, o que sobrou, um suspiro de vida que ainda insistia em fazer bater seu coração inchado e já cansado de bater sem motivo.

Nesta montanha russa que sua vida estava, ele desabou e bateu a cabeça num muro de tijolos de uma parede em construção ao lado de uma casa cheia de cachorros que não paravam de latir em direção daquela cena aparetemente inexistente aos olhos dos andantes. Uma vida desapercebida pelos humanos e percebida apenas pelos latidos dos cães.

Num momento de lucidez, ocorrido talvez pela batida no muro de sua cabeça desfigurada por tantas quedas, violentada pelo tempo e pelo uso, avistou uma vasilha de comida e, ao lado um pouco d’agua num balde, supostamente deixado para os cães que por ali passavam. A realidade era que aquilo parecia estar ali por muito tempo e já se podia notar uma coloração diferente no conteúdo daquela vazilha que, sinceramente não podia ser reconhecido pelos olhos. Ele então se sentou, parecia “lúcido” agora, mas estava longe de ser capaz de diferenciar um carro de um tricíclo, infelizmente.

Numa questão de segundos ele avançou ferozmente sua cara na vasilha e “comeu” tudo aquilo que estava ali, como se fosse sua última refeição, ou sua primeira refeição, após um longo tempo sem ver algo parecido. Depois de lamber a vasilha, restos de comida por todo seu rosto, virou para o lado, pegou o balde e o despeijou em sua cabeça. Quando sentiu a água correndo por sua cabeça, sorriu.

 

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